Artigo – A silenciosa mudança do modelo de negócios do setor elétrico mundial (*)

08-08-2014

A evolução tecnológica proporcionada pelas Smart Grids já colocou em plena marcha, mundialmente e silenciosamente, uma grande mudança de paradigma na cadeia de negócios de eletricidade, e um novo modelo de negócios já está surgindo.

Enquanto o Brasil segue com um planejamento muito alinhado com o convencional, muitos países estão revendo suas políticas energéticas, pois muitos novos agentes e empresas tem surgido a cada dia na cadeia de negócios de suprimento e serviços de energia elétrica.

No modelo de negócios tradicional, as empresas possuem mercado cativo e são basicamente supridores de energia quase que exclusivos, desde a usina até o uso final.

Um novo modelo de negócios está sendo viabilizado pelas novas tecnologias, trazendo níveis de confiabilidade de serviço em muito superior, através do uso de múltiplas fontes de energia, de diferentes escalas e tamanhos, e de múltiplos usuários e proprietários, trabalhando de forma integrada e harmoniosa.

As empresas de energia atuais, operando no modelo tradicional, fazem uso intensivo de capital, com foco em crescimento de demanda e consumo para a recuperação destes investimentos, enquanto que no novo modelo o foco é o uso eficiente de energia e o gerenciamento da demanda, para viabilização de custos competitivos.

No modelo tradicional, o retorno de investimentos é medido em décadas, enquanto que no novo modelo atualmente ele se situa entre 5 e 8 anos, tendendo a se reduzir ainda mais, com a massificação destas tecnologias e práticas.

Enquanto o modelo tradicional é calcado em concessões de infra-estrutura, baseadas em tarifas públicas, no novo modelo existe competição, através do acesso livre e sob medida para a tecnologia, viabilizando que os próprios consumidores possam construir e possuir a sua própria infra-estrutura de energia, ao menos para significativa parte de suas necessidades.

As políticas de preço de energia, tradicionalmente definidas pelos investimentos requeridos e pelo volume de mercado (escala do negócio), com frequente uso de subsídios embutidos, aos poucos cederá lugar a preços definidos caso a caso, dependendo da confiabilidade requerida, tecnologia utilizada e nível de eficiência em uso final instalado.

Finalmente, os produtos principais das empresas como serviço da indústria tradicional, basicamente o kwh e o kw, cederão lugar à novos serviços oferecidos, basicamente focados na gestão do uso final.

A tabela seguinte compara e sintetiza a abordagem de um modelo de negócios tradicional, que vigora por mais de um século, com um novo modelo de negócios, das empresas do futuro, viabilizado e em veloz implantação pela evolução tecnológica:

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As transformações em curso serão as maiores já realizadas em toda a vida de um setor elétrico mundial e que, cada vez mais, este setor se reveste de responsabilidade para a manutenção do bem estar, segurança e qualidade de vida da sociedade moderna.

A mola motora do novo modelo: os preços de energia sendo reflexo do mercado
Em vários países está surgindo um fenômeno chamado de desintermediação, que consiste em clientes de pequeno, médio e grande porte estarem crescentemente aderindo a soluções próprias de energia renovável para abastecer ao menos parte de sua necessidade. Este movimento, crescentemente sentido em escala mundial, ainda não se popularizou no Brasil pela recente redução artificialmente introduzida pelo governo
federal nas tarifas finais dos clientes, cenário que está rapidamente se alterando em tempos de crise de energia.

Clientes que produzem sua energia apresentam reduções nos mercado antes cativos das distribuidoras, que passam a vender volumes menores e, portanto, desaceleram o retorno de investimentos ao mesmo tempo em que perdem lastro de receitas sustentáveis para manterem seus custos operacionais atuais. Estas mudanças de comportamento de mercado trazem sérias tendências de problemas de precificação envolvendo a geração distribuída, que tem sido interpretada como uma fonte de erosão de receitas das distribuidoras, na medida em que reduz o consumo dos clientes que instalam painéis fotovoltaicos, reduzindo o volume do mercado cativo da empresa e conseqüentemente pressionando as tarifas de energia para serem elevadas.

Com a esperada redução do mercado, a tendência é o aumento do custo de conexão, uma vez que a mesma rede irá entregar menores quantidades de energia pela distribuidora, mas será bi-direcional. Assim, espera-se o aumento do custo da parcela de disponibilidade, transformando crescentemente custos que eram variáveis em custos fixos, independentes do volume.

Além disso, no sistema de compensação de energia ou net metering, também adotado no Brasil, são pagos aos consumidores os preços de varejo (compensação) para a energia, que deveria ser tratada como preço de atacado ou comodity: a energia entregue na baixa tensão pela concessionária incorpora serviços de manutenção de redes, faturamento, atendimento, operação, etc…, não desenvolvidos pelos clientes que instalam a micro geração. Os clientes de maior renda é que terão acesso a estas tecnologias e poderão se beneficiar delas, imputando encargos crescentes aos demais clientes, o que contraria a modicidade tarifária.

As concessionárias mencionam elevada preocupação com aspectos de segurança e riscos de acidentes aos seus funcionários e ao público em geral nessas conexões. Argumenta-se
também que o sistema de compensação de energia ou net metering adicionalmente acaba por desencorajar a implantação de baterias nesses sistemas de micro-geração e
por isso reduz a sua efetividade: nem sempre estes sistemas geram energia excedente quando ela é necessária, enquanto que em grande parte dos sistemas o pico de utilização
do sistema elétrico ocorre em horário noturno, quando estes sistemas não estão gerando, mas que poderiam apoiar se dispusessem de baterias.

Como se percebe, as novas tecnologias de geração renovável e distribuída em pequena escala trazem muitos novos paradigmas a um setor centenário, e por isso há muito trabalho a fazer. Por exemplo, um grande numero de reguladores no mundo vem trabalhando para o necessário desempacotamento dos componentes de custos para endereçar os pontos anteriormente citados, precificando-a pelo seu real valor (mercado de atacado), bem como debatendo e promovendo a progressiva inclusão mandatória da DG nos leilões de energia.

Países menos preocupados com populismo e mais focados em uma política energética consistente implantaram sistemas tarifários mais inteligentes, com sinalização sazonal, horária e locacional, sem subsídios cruzados.

Aqui no Brasil, prioritariamente a esta agenda existe ainda uma necessidade mais urgente de promover uma reforma tributária extensiva que desonere as tarifas, que reduza a regulação excessiva sobre o setor, bem como viabilize a criação de mecanismos de financiamento de longo prazo e estimule a ampliação do mercado livre.

Não há duvida que as novas tecnologias tragam, em geral, benefícios para a sociedade, mas por outro lado ficou claro que elas não podem ser implantadas com custeio exclusivo das empresas no atual modelo. Deve-se perseguir formas de criação de um novo modelo de negócios ou de financiamento direto que transcenda as empresas, como uma busca de mais equilibrada alocação de custos e de benefícios da modernização tecnológica.

No Brasil as prioridades recentes do governo abrangeram nos últimos anos de modo especifico a modicidade tarifária, a universalização do atendimento e a garantia do suprimento: outros assuntos muito importantes estavam fora desta agenda prioritária e que devem tomar maior importância doravante, principalmente o aspecto de sustentabilidade das concessões e a qualidade do fornecimento.

Para isso, as bases de uma nova e sustentável política regulatória devem também abranger: 1. A questão da renovação e modernização dos ativos; 2. Um pacto de garantia de sinais econômicos corretos e alinhados com o Governo para o setor, envolvendo tarifas, remuneração, perdas, base regulatória, orçamentos de operação, riscos, etc…; 3. Estímulos para a evolução do modelo de negócios, incluindo novos serviços e a busca da eficiência energética como objetivo prioritário permanente.

O Fórum Latino-Americano de Smart Grid
O Fórum Latino-Americano de Smart Grid foi criado em 2008 para promover a troca periódica e sistemática de informações e o relacionamento contínuo com iniciativas congêneres que estudam a implantação destas tecnologias inovadoras em outros continentes e países do mundo, sempre de forma a aplicar estas tecnologias de modo focado na América Latina, considerando as especificidades e realidades regionais.

O Fórum tem desenvolvido um importante papel de articulação e síntese institucional, com visão principalmente guiada por valor para todos os grupos de interesse e a sociedade como um todo, e não exclusivamente por tecnologia. Além disso, o Fórum é um veículo NEUTRO, INDEPENDENTE e INCLUSIVO, para mobilizar a mais ampla matriz de interessados possível, razão pela qual não cobra taxas ou anuidades, sendo mantido apenas pela sua Conferência anual.

O Fórum busca o engajamento das empresas de tecnologia, das concessionárias e dos Governos na condução de programas de modernização das redes elétricas e no debate, hoje levado em escala mundial, da busca de um novo modelo de negócios para a geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica.

Muita regulamentação nova tem sido recentemente produzida no Brasil em relação a tarifas, medidores, micro-geração e telecomunicações e estas novas regras trarão uma mudança substancial do ambiente de negócios, ao mesmo tempo em que as margens das empresas de energia têm sofrido consideráveis reduções. Este cenário, portanto, traz um desafio extraordinário para as empresas se modernizarem e ganharem mais eficiência, porém com recursos econômicos e capacidade de endividamento mais limitada, o que aumenta ainda mais este desafio para as empresas da região. Neste ambiente, o desenvolvimento de políticas públicas estáveis e de longo prazo é fundamental para que estes investimentos realmente aconteçam.

(*) Cyro Vicente Boccuzzi, Presidente do Fórum Latino-Americano de Smart Grid

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