Brasil gasta cada vez mais energia para crescimento da economia

12-11-2017

RIO – Enquanto o mundo está usando cada vez menos energia para produzir bens e serviços, o Brasil está ampliando o consumo para gerar o mesmo crescimento econômico. Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que a chamada intensidade energética — medida pela energia usada para produzir um dólar de PIB — caiu, em 2016, 1,8% em termos globais. No Brasil, onde vem crescendo ao menos desde 2013, esse indicador subiu cerca de 2% no ano passado.

Não há consenso sobre as razões que explicam por que o país está na contramão. Especialistas apontam desde a recessão até falhas de planejamento e falta de uma política de eficiência energética consistente, que englobe de modernização de infraestrutura a programas para redução de desperdício.

Os números da AIE, que constam do relatório “Energy Efficiency 2017”, levam em conta a energia primária, ou seja, não apenas a geração de eletricidade, mas também a lenha ainda usada em lares brasileiros e o combustível de carros e caminhões, por exemplo. No momento em que o Brasil discute o aumento na conta de luz, devido ao maior uso de termelétricas, e que os holofotes globais estão voltados para a COP-23, conferência do clima que acontece em Bonn, Alemanha, até 17 de novembro, pesquisadores da área de energia afirmam ser fundamental levantar a discussão sobre o uso racional dos recursos energéticos.

Contra a corrente
Brasil aumentou o uso de energia primária em relação ao PIB:

energia-corrente

 

GANHOS DE PRODUTIVIDADE

Na China, a intensidade energética caiu 5,2% em 2016. Nos EUA, a queda foi de 2,9% e, na União Europeia (UE), de 1,3%. Segundo os dados da AIE, ao crescer consumindo proporcionalmente menos energia, esses países se tornaram também mais produtivos. Nos cálculos da agência, o bônus de produtividade decorrentes da maior eficiência energética em 2016 foi de US$ 1,1 trilhão na China, US$ 532 bilhões nos EUA e US$ 260 bilhões na UE. No mundo, foram US$ 2 trilhões. O Brasil sequer aparece nessa lista.

Para Gilberto Jannuzzi, pesquisador da Unicamp, a maior parte dos países que está conseguindo reduzir sua intensidade energética são aqueles que vêm adotando medidas mais rígidas para cumprir metas de redução de emissões de carbono. Ele atribui a perda de eficiência no Brasil a diversos fatores:

— Entre as causas estruturais, estão o uso de tecnologias obsoletas, a falta de uma política de eficiência energética que leve a uma frequente renovação de equipamentos ineficientes (como ar-condicionado), além dos escassos investimentos em modernização de rodovias e mobilidade urbana, que levam os carros a consumirem mais combustível em congestionamentos — afirma Jannuzzi.

INFLUÊNCIA DA RECESSÃO

Entre os fatores conjunturais, acrescenta o pesquisador, está a recessão, que torna ineficiente a produção, especialmente na indústria. Um alto-forno não pode ser desligado mesmo que a produção de aço caia, pois, quando a economia melhorar, ele precisará estar a todo vapor. Além disso, a recessão empurra para informalidade negócios que deixam de ser contabilizados no PIB, mas mantêm a pressão sobre o consumo de energia.

Para José Goldemberg, um dos maiores especialistas em energia do país e atual presidente da Fapesp, o crescimento da intensidade energética no Brasil está relacionado à falta de planejamento, que levou ao aumento do uso de termelétricas em anos secos. Segundo ele, o país vinha reduzindo o uso de energia na produção de bens e serviços desde a década de 1970, mas viu essa curva se inverter recentemente:

— Nos anos de 1980 e 1990, a água contida nos reservatórios das hidrelétricas durava dois anos. Hoje, dura seis meses. Isso é reflexo de um planejamento ruim. Quando não chove, temos que usar termelétricas, que além de mais caras e poluentes, são menos eficientes. Há mais gasto de energia primária.

Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, avalia que os dados da AIE não guardam relação com a eficiência no uso da energia e considera inadequada a comparação entre países, pois as matrizes energéticas são diferentes, bem como os perfis de suas economias.

— Um país que produz laptop usa menos energia e gera mais PIB que um país que produz minério de ferro, cujo valor no mercado é menor que o de um computador e que demanda mais energia para ser produzido. Isso não diz nada sobre a eficiência energética de um país. É uma questão de eficiência econômica.

Jannuzzi reconhece que a comparação internacional não é perfeita. Afirma, porém, que a estrutura econômica de um país é uma das dimensões da eficiência energética, ao lado da eficiência técnica e do estilo de vida da população. O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), Alexandre Moana, concorda. Ele ressalta ainda a necessidade de se criar uma certificação para a indústria, a exemplo do selo Procel, que já existe para equipamentos e edificações. A associação está trabalhando numa metodologia.

— A ideia é criarmos mecanismos de incentivo para adesão a esse selo, como a exigência dessa certificação para a inclusão em cadastro de fornecedores.

O diretor do Departamento de Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Carlos Alexandre Príncipe Pires, afirma que o governo “está atento à criação de instrumentos que facilitem a eficiência energética na indústria”. Quanto aos dados da AIE, ele avalia que o fator o principal que explica a situação brasileira é a recessão.

Veja a matéria original no portal O Globo.

Fique sempre atualizado!

Faça seu cadastro e receba nossos informativos, eventos e cursos.

Torne-se um associado

Conheça os benefícios de ser um associado ABESCO

Como se associar