Data centers e eficiência energética: como a inteligência artificial está mudando o consumo de energia
Data centers e eficiência energética: como a inteligência artificial está mudando o consumo de energia
A expansão dos data centers no Brasil está colocando a eficiência energética no centro de uma discussão que, até pouco tempo, estava mais associada a setores industriais, comerciais e de infraestrutura. O avanço da inteligência artificial (IA), da computação em nuvem e do processamento intensivo de dados aumenta a necessidade de capacidade computacional e, consequentemente, pressiona o consumo de energia dessas instalações.
O desafio é direto: como ampliar a capacidade de processamento sem fazer com que o consumo energético cresça na mesma proporção?
Uma análise publicada pela Infor Channel em setembro de 2026 mostra que o setor já busca respostas para essa questão. Entre os caminhos estão novas tecnologias de refrigeração, gerenciamento do fluxo de ar e soluções capazes de melhorar a distribuição do ar refrigerado dentro dos ambientes de alta densidade computacional.
Mais do que uma questão operacional, a eficiência passa a fazer parte do próprio planejamento dos data centers. Afinal, energia, refrigeração, disponibilidade, desempenho e capacidade de expansão estão diretamente relacionados.
A eficiência começa no gerenciamento térmico
Um dos principais pontos de atenção está na refrigeração. Servidores mais potentes, especialmente aqueles destinados a aplicações de inteligência artificial e computação de alto desempenho, concentram cada vez mais capacidade de processamento em espaços menores. Essa maior densidade computacional também significa maior concentração de calor.
É nesse cenário que tecnologias como o liquid cooling, ou refrigeração líquida, ganham espaço. Diferentemente dos sistemas tradicionais, que utilizam o ar como principal meio de transferência de calor, o resfriamento líquido permite retirar o calor diretamente de componentes de alta densidade, tornando-se uma alternativa importante para determinadas arquiteturas de data centers.
A tecnologia não deve, entretanto, ser analisada isoladamente. A eficiência de um data center depende da integração entre geração e fornecimento de energia, sistemas elétricos, climatização, automação, distribuição de ar, equipamentos de TI e gestão operacional.
Essa visão sistêmica é fundamental para identificar onde estão as maiores oportunidades de redução de consumo.
Fluxo de ar também é uma questão de eficiência
Nem sempre os ganhos de eficiência exigem a substituição completa da infraestrutura. O próprio gerenciamento do fluxo de ar pode contribuir para melhorar o desempenho dos sistemas de refrigeração.
A análise publicada pela Infor Channel destaca soluções como portas de rack de alta vazão e placas de piso com maior área aberta. Essas alternativas facilitam a passagem do ar refrigerado e podem melhorar sua distribuição até os equipamentos, reduzindo esforços desnecessários dos sistemas de climatização.
De acordo com os dados apresentados na reportagem, essas soluções podem proporcionar, dependendo da configuração da instalação, da carga térmica e das condições operacionais, reduções de até 10% no consumo total de energia do data center, de até 20% no sistema central de refrigeração e de até 50% na energia utilizada pelos ventiladores. São potenciais indicativos, e não resultados universais: cada projeto precisa ser avaliado a partir de suas características técnicas e operacionais.
Esse ponto reforça uma premissa importante da eficiência energética: antes de definir uma solução, é necessário compreender onde, como e por que a energia está sendo consumida.
Eficiência não é apenas reduzir consumo
Em uma infraestrutura crítica como um data center, reduzir o consumo de energia não pode significar comprometer disponibilidade, segurança ou capacidade de processamento.
Por isso, a discussão sobre eficiência precisa considerar também indicadores de desempenho. A PUE (Power Usage Effectiveness), por exemplo, continua sendo uma métrica importante para avaliar a relação entre a energia total consumida pela instalação e aquela destinada aos equipamentos de tecnologia da informação. Porém, o crescimento das cargas de inteligência artificial vem ampliando o debate sobre métricas capazes de relacionar energia e capacidade computacional efetivamente entregue.
Na prática, isso significa mudar a pergunta.
Não basta perguntar apenas “quanto de energia o data center consome?”. Também é necessário entender “quanto de capacidade computacional essa energia está entregando?”
Essa mudança de perspectiva pode ajudar operadores a identificar oportunidades que vão além da simples redução de consumo e envolvem desempenho, confiabilidade, densidade computacional e custo operacional.
Brasil tem oportunidades, mas também enfrenta desafios
A expansão dos data centers no país está relacionada a uma combinação de fatores. A disponibilidade de energia, a expansão das fontes renováveis, a conectividade e a proximidade dos grandes centros consumidores são elementos relevantes para a localização de novos empreendimentos.
O Ceará, por exemplo, vem ganhando destaque pela conectividade internacional proporcionada pela chegada de cabos submarinos e pela disponibilidade de geração eólica e solar. Ao mesmo tempo, o Sudeste permanece estratégico pela concentração de consumidores e pela infraestrutura existente.
O crescimento, porém, depende de superar gargalos. Licenciamento ambiental, disponibilidade de energia, infraestrutura elétrica, conectividade e espaço físico estão entre os fatores que podem determinar a viabilidade e a velocidade de implantação de novos projetos.
Um estudo divulgado em 2026 pela Schneider Electric em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) reforça a importância da infraestrutura elétrica para essa expansão. A análise projeta que a capacidade instalada de data centers no Brasil poderia chegar a 26 GW ou 45 GW até 2050, dependendo, entre outros fatores, da expansão da infraestrutura elétrica renovável.
Isso evidencia uma questão que vai além do próprio setor de tecnologia: a expansão da economia digital também será uma questão energética.
Onde entram as ESCOs?
É justamente nesse ponto que surge uma oportunidade relevante para as Empresas de Serviços de Conservação de Energia, as ESCOs.
A complexidade dos data centers abre espaço para uma atuação especializada, baseada em diagnóstico, medição, engenharia, automação e gestão contínua de desempenho.
Entre as possibilidades estão:
- Diagnósticos e auditorias energéticas;
- Análise e otimização dos sistemas de refrigeração;
- Gerenciamento térmico e fluxo de ar;
- Automação e sistemas de controle;
- Monitoramento de consumo e desempenho;
- Gestão da demanda;
- Modernização de equipamentos e sistemas;
- Integração de geração distribuída;
- Armazenamento de energia;
- Estudos de viabilidade técnico-econômica;
- Medição e verificação de resultados;
- Contratos de desempenho energético.
A atuação das ESCOs pode ser especialmente relevante porque eficiência em data centers exige mais do que a aquisição de equipamentos eficientes. É necessário identificar oportunidades, dimensionar corretamente as soluções, avaliar o retorno dos investimentos e acompanhar os resultados ao longo da operação.
Em outras palavras, existe espaço para transformar eficiência energética em engenharia aplicada, gestão de desempenho e resultado econômico.
Uma nova fronteira para a eficiência energética
A expansão da inteligência artificial está mudando a escala da infraestrutura digital. Mais processamento exige mais capacidade, mais energia e mais capacidade de dissipação térmica.
Ao mesmo tempo, o crescimento do setor aumenta a importância de soluções que permitam fazer mais com os recursos disponíveis.
Nesse cenário, eficiência energética deixa de ser apenas uma iniciativa de redução de custos e passa a integrar decisões estratégicas sobre projeto, expansão, infraestrutura, competitividade e sustentabilidade.
Para o Brasil, que busca ampliar sua participação no mercado global de data centers e conta com uma matriz elétrica com forte presença de fontes renováveis, essa discussão ganha ainda mais relevância.
O próximo passo é aproximar tecnologia, engenharia, energia e gestão.
E é justamente nessa convergência que as ESCOs podem desempenhar um papel estratégico: diagnosticar oportunidades, implementar soluções e transformar eficiência em desempenho mensurável.
A expansão dos data centers é uma tendência que deve continuar acompanhando o avanço da inteligência artificial e da digitalização. A questão que se coloca para o setor energético é como garantir que essa expansão aconteça de forma eficiente.
Porque, na infraestrutura digital do futuro, cada watt também precisa entregar resultado.
Fontes
- Infor Channel — “Data Centers entram na era da eficiência energética, e o Brasil quer liderar essa corrida”, publicado em 10 de setembro de 2026.
- Schneider Electric — informações técnicas sobre refrigeração líquida e eficiência em data centers.
- Schneider Electric e MDIC — estudo sobre infraestrutura elétrica e expansão dos data centers no Brasil.
- DCD — discussão sobre demanda energética, eficiência e sistemas de refrigeração em data centers.



